O projeto do PSDB foi rejeitado. Tínhamos um projeto?

Certamente após a eleição do dia 07 de outubro de 2018, o Brasil será um país diferente. Se melhor ou pior, não sei. Resta a nós que temos apego à democracia e seus valores, buscarmos além da oitiva, a compreensão dos recados dados pela população através das urnas. O PSDB deve, acima de tudo, reconhecer que seu projeto foi rejeitado nas urnas em 2018. Aliás, questiono: tínhamos algum projeto?

Contudo, o PSDB continua repetindo os erros do passado.

As urnas nos deram um recado, mais uma vez, nos negamos a ouvi-lo, quer dizer, não nos negamos, a Executiva Nacional nega a oitiva. Tomar posição, escolher lado, falar o que pensa, não é pecado. Mais uma vez a base fica alijada do processo decisório, mais uma vez o muro se torna um lugar confortável às velhas aves de plumagem, que um dia brilharam aos olhos do Brasil e estão hoje decadentes.

Legar para cada diretório fazer o que quiser é virar um PMDB ou um PP. Respeito essas siglas e os amigos filiados a elas, mas o PSDB tem desde sua origem, um dever maior do que o caciquismo regional. Fazer isso, só reafirma a postura dos últimos anos de legar à militância uma posição secundária. Depois, não adianta reclamar porque o PT, após os acontecimentos dos últimos anos, fez quase 30% dos votos e o PSDB não.

Ou nos renovamos e nos abrimos, ou seremos relegados ao papel coadjuvante que nossos fundadores nunca desejaram.

Os tucanos têm que perder o medo da democracia.  Deveria haver uma consulta, mínima aos diretórios dos 200 maiores municípios do Brasil, antes de tomar quaisquer posições. Maneira democrática e rápida de ouvir a base, ao invés da velha discussão no Monte Olimpo.

O PSDB em sua fundação teria paralelos na política europeia com o SPD na Alemanha e como Labour Party na Inglaterra. Hoje, as bandeiras defendidas alinham-se muito mais à CDU na Alemanha e ao Partido Conservador na Inglaterra. Devemos admitir que a política no Brasil é sue generis, ou seja, é algo que só existe aqui e que esse deslocamento ideológico é natural, face às mudanças dos adversários e do mundo. Quem parou em 1988 não pode se apresentar com alternativa aos desafios e anseios do Século XXI.

Isso não quer dizer que valores fundamentais devem ser largados. A democracia, por exemplo, é assim como foi em 1988, um valor fundamental, da mesma forma, as bandeiras do parlamentarismo e do voto distrital misto, como os fundadores sugeriram, se renovam e devem ser pautadas. A população anseia por mudanças na política, temos a melhor proposta. Covas em 1989 propôs a radicalização da democracia e um choque de capitalismo, isso é atual. Mas alguns desafios e preceitos de 88 estão superados, não podemos nos prender a eles.

O exemplo vem de cima. O PSDB deve fazer a autocrítica, o resultado do pleito é uma demonstração, cobra-se do PT, contudo devemos fazê-la também. O PSDB tem errado ao longo dos anos, fomos dizimados nessa eleição, pelos erros, pela falta de posição e pela falta de projeto.

“Seguir o baile” e manter o tradicional fratricídio de bastidores é aceitar a derrota e a mediocridade. Não sou medíocre nem quero que o PSDB seja assim. Enquanto o partido mantiver esse pensamento, outras ondas nos atropelarão, como foi em 2018 e os bons quadros, que sempre caracterizaram o partido, continuarão a deixá-lo.

O Programa de 1988 diz que “partidos de verdade não se criam a qualquer momento ou por qualquer pretexto.” Passado o 2° Turno será a hora de o PSDB mostrar a sociedade brasileira que é sim um partido de verdade.

*texto originalmente publicado na Gazeta do Povo em 29/10/2018

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