Voz ou Bala

Hoje falarei sobre a “voz ou a bala”. A voz e a bala é autoexplicativo, mas antes de aprofundar o tema, quero esclarecer algo que se refere às minhas convicções pessoais.

Tenho a firme convicção de que a democracia é um valor fundamental e inalienável, creio que devemos reforçar e atualizar nossas instituições democráticas, a fim de que novos sentimentos e anseios da população sejam representados, evitando assim a violência, o populismo ou, até mesmo, o autoritarismo.

Nos Estados Unidos, a luta pelo racismo tem vários ícones. Martin Luther King, um ministro cristão marcado pela travessia da ponte de Selma e pela Marcha sobre Washington. Outro representante dessa luta é Malcolm X, talvez menos conhecido no Brasil, mas ele que foi um ministro muçulmano, é representante da negritude urbana com um forte discurso, muitas vezes radical, e é também um ícone da autoafirmação do afroamericano. É nele e em seu famoso discurso “O voto ou a bala”, de 1964, que me inspiro. Esse texto é também a releitura de um discurso que fiz em 2017.

Já na década de 60, Malcolm X admitia que as múltiplas frentes de luta, independentemente da religião, eram importante na luta pela liberdade do negro. Assim como nos Estados Unidos na década de 60, aqui no Brasil, em pleno século XXI o negro precisa de várias frentes de luta pela garantia dos seus direitos, tais frentes estão espalhadas em partidos políticos, religiões e segmentos organizados da sociedade civil. Religião e ideologia política estão legados ao seus espaços, aos templos e às disputas eleitorais.

E é bom que seja assim. Se viéssemos aqui discutir a dicotomia Esquerda X Direita, é possível que o abismo ideológico nunca possibilitaria nossa união. Quero aqui pedir VOZ ao povo negro. É a garantia da voz ao povo negro que, clama pelo fim da violência, do racismo e da segregação, que faz com que tenhamos todos um inimigo comum.

Dar voz ao povo negro é possibilitar que o homem e a mulher negra participem politicamente em sua comunidade. O povo negro está cansado de falácias daqueles que dizem representar nossas bandeiras, nos faziam votar neles e o diziam que fazer, esse tempo já se foi. 

Dar voz ao povo negro significa que vamos viver em nossa comunidade e mudar as nossas realidades, através da interação e da autoafirmação, de que somos negros, e que nossa política saberá o que irá produzir. Temos que ser politicamente maduros, a fim de que não sejamos mais enganados ou manipulados por aqueles que não querem o nosso bem. Assim sendo, temos que trabalhar as crianças e jovens, para que sejam mais conscientes, maduros e assim estaremos prontos para dar nossos votos e nossa confiança aos que trabalham e fazem bem à nossa comunidade.

Dar voz ao povo negro é possibilitar nossa emancipação econômica, é dar condições de que possamos empreender. Um negro pode e deve ser empresário. Um negro pode e deve aparecer nas propagandas de tv. Um negro pode e deve consumir produtos voltados à suas especificidades, nosso cabelo, nossas roupas, nossa cultura… essa é uma via de duas mãos somos um mercado consumidor inexplorado, que ao ser alimentado pode desencadear uma série de novas iniciativas e produtos que vão fortalecer nossa identidade e, consequentemente, a economia.

Assim sendo, meus amigos, como vocês podem ver, não é nossa intenção hoje discutir tendências à direita ou à esquerda. Vamos deixar a disputa eleitoral para as urnas. Mantenha seu partido do coração no armário.

Seja você, um tucano, um petista ou bolsonarista, temos todos o mesmo problema. Eles não atravessam a rua porque você é um petista; eles atravessam a rua porque você é negro. Eles não me atacam porque eu ou um tucano; eles me atacam porque eu sou negro. Eles atacam todos nós pelo mesmo motivo; estamos todos no mesmo barco. Nós sofremos opressão, exploração econômica e estamos em vulnerabilidade – tudo isso através do mesmo problema. O Brasil falhou conosco; não podemos negar.

Nós precisamos nos ajudar, nos unir, em suma, precisamos de um programa de união, da autoafirmação e da autodeterminação. Façamos agora, não podemos mais perder tempo. Dar voz ao povo negro é afirmar que ser negro é lindo.

O que tem de bom nisso? Temos que, escrever, reescrever, contar e recontar nossa história. Ao contarmos nossa história, nossos feitos, nossos vultos, deliberadamente embranquecidos ou à margem dos livros de história, nossos filhos e nossos jovens sentirão ORGULHO. Embranqueceram Machado de Assis, esqueceram Lima Berreto, não nos contaram sobre o Doutor Justino, Emiliano Perneta e os irmãos Rebouças…

Quero aqui ir além da denúncia do racismo, quero propor algo: mudarmos o padrão de pensamento, que por consequência, também muda a atitude. Assim que você muda sua atitude, ela muda seu padrão de comportamento e então você parte para alguma ação. Em contrapartida, enquanto você estiver esperando, será continuado usando o velho pensamento. Eles vão continuar deixando você esperando. O que isso traz? Imagine alguém sentado, esperando. Uma idosa pode sentar. Um jovem pode sentar. Um trouxa pode sentar. Um covarde pode sentar. Qualquer coisa pode sentar. Bem, você e eu estivemos “esperando” tempo suficiente, e hoje é hora para nós começarmos a “AÇÃO”.

Quando olhamos para história do Brasil, observamos que a plena liberdade não nos foi legada, estamos há mais de 500 anos reféns do colonialismo. Temos uma cidadania de segunda classe, vivemos nos guetos do século XXI. Cidadania de segunda classe… vítimas do sistema… em pleno Século XXI!

Da mesma forma que os negros clamaram por voz na década de 60 nos Estados Unidos; da mesma forma que Mandela lutou contra o apartheid, para que não sejamos mais reféns, os milhões de negros deste país precisam de VOZ!

E 2018 parece que vai ser o ano da voz ou da bala.

Por que parece que vai ser o ano da voz ou da bala? A crise política no Brasil é latente, a população percebe as mentiras e as falsas promessas. Está de saco cheio. Desencantou-se, está desiludida. A insatisfação é geral, e tudo isso construiu frustração na comunidade negra, o que faz a comunidade negra por todo o Brasil hoje tão explosiva quanto as bombas atômicas. Sempre que você tem um barril de pólvora racial deitado no seu colo, você tem mais problemas do que se você tivesse um barril de pólvora atômica deitado no seu colo. Quando o barril de pólvora racial explode, não interessa quem seja, ele derruba do caminho. Entenda isso, é perigoso.

Sendo assim, hoje, o nosso povo está desiludido. Está desencantado. Está insatisfeito, e em sua frustração ele quer ação.

Em 2018 onde estarão os jovens negros? Essa nova geração vai pedir voz ou estará legada à bala. Bala que diariamente mata nossos jovens. Hoje as probabilidades dizem que é mais seguro andar fantasiado de soltado americano no Iraque do que ser um jovem negro na periferia das grandes cidades brasileiras. Isso nos coloca contra todas as probabilidades. Mas essa geração não quer mais ouvir nada de a probabilidade estar contra nós. O que nos importa a probabilidade?

Quando o Brasil ainda era colônia, ainda no século XVI, Tiradentes se revoltou e pediu liberdade conta o “Quinto”, imposto que levava 20% da produção. A elite local estava cansada de sustentar uma corte cheia de privilégios do outro lado do oceano, então alguns se levantaram e ecoaram “Independência ou morte”.

 “Independência ou morte” foi o que trouxe liberdade para a elite local, cansada de ser economicamente explorada.

Temos aqui milhões de brasileiros vivendo um inferno que é sustentado não pelo Quinto de nossas riquezas, mas por um terço! Um terço de tudo o que produzimos serve para sustentar esse elefante, pesado, ineficiente e racista aparato estatal. E eu estou aqui para te dizer, caso você não saiba… temos uma nova geração de negros nesse país que não se importa de forma nenhuma com probabilidade, que quer VOZ!

Por que este aparenta ser um ano político tão explosivo? Esse é o ano quando todos os políticos vão vir, muitos tentam falar sobre os negros e sua situação, mas poucos fazem pelo povo negro.

Faço política há mais de uma década e posso dizer: somos vítimas de um sistema político que não representa os anseios da sociedade. Somos vítimas de um sistema político que não representa quem diz representar. Somos vítimas de um sistema político que precisa ser reformado, infelizmente pelos que lá estão. Muitos veem a política com os olhos de quem nunca se beneficiou da democracia. E a geração que está chegando agora pode ver isso e não está com medo de dizer isso.

Milhões de vítimas desse sistema político estão acordando, ganhando consciência e maturidade. Desta forma cada vez mais são capazes de ter uma leitura do momento de fragmentação política e de fragilidade das instituições brasileiras.

Ao observarmos isso, dar voz ao negro é essencial. O que ganhamos com isso? Ganhamos espaço na política, nas instituições, nas leis… ganhamos espaço na sociedade e poder de decisão. Decisão de nossas vidas para nos autoformarmos e nos determinarmos, como sujeitos de nossas histórias.

O PT esteve no poder por 14 anos. Arrogou para si o direito de falar pelos negros, como se todos assobiassem pelas esquinas das periferias as notas da Internacional Socialista. Controlou o Congresso, o Senado e as corporações. Pergunto: por que justamente nesse período a mortalidade de jovens negros explodiu? Toda vez que a população negra deixa que partido fale por ela e que esse partido não consegue manter a promessa que te fez durante a época da eleição, temos uma atitude notadamente estúpida, por andar por aí continuando a se identificar com esse Partido, você não é somente um estúpido, mas você é um traidor.

E qual a desculpa deles? A luta de classes… a luta de classes não faz o menor sentido prático, muito menos teórico-histórico. Nunca haverá uma ditadura do proletariado ou uma sociedade socialista e feliz, menos ainda no século XXI.

Veja uma foto dos congressistas: quem eles representam? A população brasileira é formada por cerca de 50% de afro-descentes; aonde estão os outros 49% que nos representariam no Congresso? Isso se reproduz em todas as casas legislativas, da menor cidade à capital de São Paulo. Alguém aqui acha que nossa democracia está nos rumos certos?

Imaginem: se o Lula não tivesse sido for preso, ele disputaria a eleição com grandes chances de vitória. O que ele faria? Convidaria “intelectuais” e “movimentos sociais” pra um café. Todos saem de lá reconhecendo como ele é um cara legal. Ah, eu digo que foram desencaminhados. Foram dominados. Foram pegos.

Vejam as estatísticas, via de regra, os estados campeões na mortalidade da juventude negra são justamente os mesmos que o PT venceu as últimas eleições presidenciais, tem governadores e/ou prefeitos aliados. Nenhum destes políticos que arrogam para si a voz dos negros está ao nosso lado. Eu sei que tem gente aqui que não está gostando de me ouvir dizer isso, mas hoje não é o dia que vim aqui para dizer o que você gosta de ouvir. Eu vou te dizer uma verdade, goste ou não.

Alguns que aí estão e arrogam para si o monopólio da voz dos negros podem se dividir em dois tipos: os lobos e as raposas. Uma raposa e um lobo são ambos caninos, ambos pertencem à família do cachorro. Agora você escolhe. Você vai escolher um lobo ou uma raposa? Afirmo: tanto faz o canino escolhido, garanto que você ainda vai estar na casinha do cachorro.

É por isso que eu digo que é a voz ou a bala. É independência ou é morte. É liberdade para todo mundo ou liberdade para ninguém. O Brasil está em uma situação única. Historicamente, reformas são doloridas. Ah, sim, elas são! Nunca houve reforma sem protesto. Isso não acontece nem mesmo em Hollywood. Você não tem uma revolução onde você não enfrenta resistência das corporações e dos interesses escusos, e você não tem uma reforma onde você está implorando ao sistema de exploração para que ele te integre. Reformas subjugam interesses. Reformas destroem o status quó. As “revoluções” então… fazem com que o sangue corra pelas páginas da história

A Revolução Russa foi sangrenta; a Revolução Chinesa foi sangrenta; a Revolução Francesa foi sangrenta; a Revolução de Cuba foi sangrenta; e não houve nada mais sangrento que a Revolução Americana. Hoje o Brasil precisa de reformas, mesmo que doloridas, para que não haja mais derramamento de sangue.

O Brasil tem que ver isso!

Então é a voz ou a bala. Hoje o nosso povo pode ver que nós estamos assistindo uma briga de forças e interesses. Falharam conosco. Estão obstruindo direitos.

Nós que lutamos para que tenhamos voz, temos que lutar pela garantia dos nossos direitos, estabelecidos na Constituição.

Então nosso próximo passo é usar nossas vozes para gritarmos os direitos que temos, gritar e elencar líderes que realmente representem nossos anseios, gritar por uma reforma política que aproxime os representantes dos representados.

O sangue de nossa juventude está nas mãos dos que arrogaram para si o monopólio da voz dos negros. Esses ainda têm a cara de pau de se levantar e falar sobre os trabalhos que já ajudamos a desenvolver.

Assim, eu digo na minha conclusão que o único meio pela qual nós vamos resolver isso – nós precisamos nos juntar em união e harmonia, e darmos VOZ de verdade, ao povo negro e à juventude. Todos somos a favor da liberdade. Podemos até ter divergências ideológicas, mas ao fim, temos o mesmo objetivo.

Se você que alguma instituição (governamental ou não) está pregando e praticando aquilo que é designado a dar voz ao negro se materializar, ajude-a. Junte-se a qualquer tipo de organização – civil, religiosa, fraternal, política ou qualquer outra que é baseada na elevação do povo negro para torná-lo mestre da sua própria comunidade.

Vai ser a voz ou a bala. Vai ser independência ou vai ser morte. E se você não está pronto para entender essa mensagem, não use a palavra liberdade no seu vocabulário. 

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